O Voluntariado e a sua dimensão de Desenvolvimento Pessoal

Por Joana Gonçalves - 30 março



Escrevo-vos, hoje, sobre Voluntariado, uma temática que, como tantas outras, desperta diferentes opiniões e pontos de vista. Da minha parte, venho falar-vos de uma recente experiência pessoal neste contexto, e que reflexão faço dessa vivência.

Participei, no mês de fevereiro, numa missão de Voluntariado denominada de Visão Guiné. Ainda que tenha sido a primeira vez que ingressei nesta aventura, é uma missão que já se realizou oito vezes, sendo esta a 8ª Missão Visão Guiné. O foco e o objetivo principal desta missão é o de retirar o número máximo possível de pessoas da cegueira, através da cirurgia da catarata, na Cumura, Guiné-Bissau. O grupo contou com 11 elementos, entre eles, especialistas de Oftalmologia, internas de Oftalmologia, enfermeiras, uma administrativa, e eu, psicóloga.

A missão atingiu os objetivos expectáveis e foi, como já costuma ser, altamente eficaz nos seus resultados, uma vez que, em 8 dias, foram realizadas 78 cirurgias e cerca de 1000 consultas de Oftalmologia.

O objetivo desta publicação é, mais do que dar a conhecer esta missão em específico, levar-nos a refletir sobre o porquê de nós, como seres humanos, nalgum momento da nossa vida, e das mais variadas formas, recorrermos ao voluntariado e às ações humanitárias como forma de “fazer bem ao próximo”. Uso esta expressão porque, no senso comum, é esse o significado do voluntariado, que, maioritariamente, é interpretado como “alguém que tem mais, dá algo a alguém que tem menos”. Mas será que, na prática, podemos “reduzir” o voluntariado a isto?

Antes de partirmos, no mês de fevereiro, o nosso mentor e líder desta Missão, enviou-nos algumas questões de reflexão para que, como voluntários, pudéssemos pensar e encontrar algumas respostas, quer, num primeiro momento, dentro de nós, quer ao longo dos desafios e descobertas da própria missão. Destas várias questões, podemos salientar:

  • Quais as razões íntimas que me levam a integrar uma missão? (Motivações, valores, necessidades, expectativas)
  • Vou essencialmente por mim, por eles, ou ambos?
  • Como posso dar primazia às necessidades deles, mas também tornar a missão num momento de caminho pessoal?
  • O que considero fundamental ter bem presente quando estiver na missão?
  • Estou preparado para promover a união entre os elementos do grupo?
  • Até que ponto consigo levar comigo um espírito de dádiva gratuita nas ações que vou desenvolver?
  • Estou disponível para ajudar em qualquer atividade e adaptar-me à realização de tarefas que surjam e inicialmente não previstas?
  • Tenho consciência que algumas situações humanas mais dramáticas podem interferir com a minha estabilidade psicológica?
  • Estou preparado para lidar com tolerância perante reações de maior suscetibilidade de outros elementos do grupo?
  • Como penso gerir os meus eventuais medos ou apreensões?
  • Será melhor ver apenas resultados e frutos imediatos, ou semear testemunhos?
  • Mais do que querer a "grande obra" de mudar aquela realidade, não será mais leve e simples querer apenas ser solidário?
Para quem já integrou ou pensa integrar e participar numa ação de voluntariado (seja onde for ou de que dimensão for), terá já alguma vez tido em conta todas estas questões que estão envolvidas?

Ainda que esta Missão (ou outras ações de voluntariado) tenham, claro, um grande e óbvio impacto no público-alvo, a verdade é que quando ouvimos os testemunhos dos participantes desta missão (ou das anteriores), o feedback dado é maioritariamente o de “experiência inesquecível e gratificante” ou de “oportunidade incrível de crescimento pessoal”.  E claro que não deixa de ser engraçado... Quando nos dedicamos a algo ou nos atiramos de cabeça para uma iniciativa em que acreditamos e que nos faz dizer com convicção, alto e a bom som, que vamos “ajudar os outros”, mas que, no limite, é a nós que nos testa, nos desafia, nos emociona, nos coloca a par com pessoas de valores e motivações semelhantes que, de outra forma poderíamos não conhecer e, claro, que nos faz conhecer outras culturas e outras realidades que, com maturidade, devemos aceitar e respeitar, por mais diferentes que sejam.

Para além dos pontos de reflexão acima colocados, para quem já participa ou pensa vir a participar em ações de voluntariado, gostaria de lançar um desafio:

De que forma podemos ser “voluntários” no nosso dia-a-dia?

Podemos refletir sobre isso e agir nos mais variados contextos, seja em nossa casa, no trabalho, com os nossos amigos, pais, filhos, colegas de trabalho, etc. Podemo-nos questionar: quais as minhas competências e características que eu estaria a pensar pôr em prática no Voluntariado, que posso “treinar” na minha rotina diária? Seria a flexibilidade perante as adversidades? Seria o espírito de grupo? Seria a minha empatia, compreensão e tolerância perante comportamentos dos outros? Seria a minha capacidade de adaptação perante o desconhecido? Seria a minha calma em situações de stress?

Todas elas parecem fundamentais numa ação de voluntariado, não parecem? Sim. A mim parecem-me.
Desta forma, e para além de começarmos ou continuarmos a participar em ações humanitárias e de voluntariado que são, sem dúvida, experiências que nos enriquecem, que tal começarmos a ser “voluntários” já hoje, na “porta ao lado”? J


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